Friday, January 29, 2016

De novo à noite

Ele está prestes a adormecer, segurando a minha mão. Ouço uma chuva esparsa e o barulho das crianças do vizinho. Não é preto, exatamente, mas vá lá, vejo o recorte preto das coisas na estante contra a luz fraca, rosa alaranjada do vão da janela.

O calor da mão macia dele e a cintilação de uma poucas gotas no vidro. Um instante.

Me lembro então do fim das Ilusões perdidas. É como se fosse minha memória.
Penso então, quem entenderia isso? e logo em seguida como certas ideias são incompreensíveis para algumas pessoas e para outras, como o... Como se diz isso mesmo? Não, não é hizbollah! (Ninguém me ouviu pensar isso, certo?)
Vou ao banheiro. Me imagino contando o final das Ilusões perdidas pra minha cunhada, que cara ela faria? Aparece a cara do Freud, o olhar fulminante. O shibboleth, sua louca.
Tá, o shibboleth que as revela às suas iguais.


Monday, January 18, 2016

Na noite escura

Sonhei esta noite que era uma árvore que caminhava. Penetrava cega e profundamente a terra com minhas raízes.
No mesmo sonho comi um pedaço de bolo de nozes com baba de moça. E meu filho era um transformer amarelo (mas não o Bumblebee).
Não há mundo mais real.


Tuesday, September 29, 2015

Kiasmos, Torsten Posselt (FELD), Andreas Nicolas Fischer (sleepy random finds)

Acordei cedo demais. Achei isso no Soundcloud: https://soundcloud.com/erasedtapes/kiasmos-bent. A cover art lembra as nuvens que eu desejo (ainda) mais quando estou dormindo acordada:


Foi feita por Torsten Posselt, um designer do FELD, com base numa obra de
Andreas Nicolas Fischer, um artista de que se pode ver mais aqui (o nome da série a que pertence a obra usada é Schwarm III).

Friday, September 11, 2015

Thursday, August 6, 2015

Da mandioca à tapioca (e muitas outras coisas boas) 1

Anos atrás, quando eu ainda era uma estudante universitária que ia (caminhando) a cachoeiras, poucas pessoas conheciam tapioca. Os imigrantes nordestinos, lógico. Gente que tinha ido para o Nordeste ou que tinha amigos de lá e eventualmente aprendia a fazer pra ter um gostinho das férias em pleno perrengue paulista. Depois um iluminado pôs uma banquinha perto do parque Villa Lobos à qual se seguiram outras, fenômeno que deve ter acontecido noutros lugares do tipo.

Mas agora é outra escala: parece que todo mundo que eu conheço, ex-mochileiro ou não, nordestino, amigo ou descendente de nordestino ou não, está fazendo tapioca. Bom, um dia a verdade vence, pelo menos em alguns casos e ainda que não pelas razões mais retas. Me explico: acho que a febre da tapioca se deve ao fato de que ela não tem glúten e 1. a intolerância ao glúten está na moda (coisa intrigante) e 2. é uma opção para substituir o pão nos regimes que restringem ou proíbem glúten. Pra mim, no entanto, os melhores motivos para adotar a tapioca são: que é barata, rápida e fácil de fazer e, o decisivo, é deliciosa.


Enfim, recentemente, depois de várias tapiocas por aí, resolvi aprender, pra comer sempre que der vontade. A alegria que eu senti é como a de outras aprendizagens práticas... como a de aprender a fazer pão, macarrão, dirigir, qualquer coisa que melhora a vida e te dá mais autonomia. E, claro, comecei a pensar... Qual a diferença entre farinha e polvilho? E Maisena? E entre os polvilhos? E a mandioca, é só brasileira? E assim por diante.


O único ingrediente da tapioca - e uma das farinhas do pão de queijo e de outras tantas coisas gostosas - é o polvilho doce, extraído de mandioca (em inglês, cassava). Update: nos informaram de que o polvilho azedo também serve, e serve mesmo, apesar de todas as receitas que eu consultei indicarem só o polvilho doce. Fizemos só uma vez e achamos que ficou mais "borrachenta" ou massuda, mas é só fazer uma massa mais fina que resolve.

Pra quem não é do Brasil ou para brasileiros muito distraídos: a mandioca é nativa da América do sul, é a base da alimentação tradicional dos índios (e dos outros brasileiros). Há duas variedades, a brava e a mansa. A brava tem altas concentrações de ácido cianídrico (um veneno poderoso que mata porque se combina com a hemoglobina e portanto impede o transporte do oxigênio) e requer um tratamento especialmente longo ou intenso para virar alimento; a mansa, chamada também de macaxeira, tem menos ácido, que o cozimento faz evaporar.

Esta imagem é do processo rústico, veio do site Agrofloresta, em que se pode ver todo o processo.

Bom, o polvilho é o amido da mandioca. As raízes são moídas ou raladas. Coloca-se bastante água na massa resultante e a coisa vira um caldo branco espesso (uma suspensão), que então é coado - só o amido e a água passam pelo filtro. O processo pode ser repetido, o que retira mais e mais amido da massa. Se todo o amido for retirado, o que sobra é, uma vez seco, uma farinha de má qualidade (lógico, o amido é o gostoso).

Deixa-se o caldo de água e amido descansar; o amido decanta, tira-se a água. Sobram uns "blocos" que secam e depois são moídos: eis o amido doce. Ou pode-se deixar o caldo fermentar e então secá-lo e moer o que decantar, e o resultado é o amido azedo. Eles têm gostos e propriedades culinárias diferentes. A tapioca é feita de amido doce, que é o mais grudento (lógico, a fermentação consome parte do amido, que é o que gruda). Ah, está escrito no rótulo da Maisena "amido de milho". Milho, não mandioca. Fécula, a outra palavra que aparece, é "farinha rica em amido". E eu a vida toda achando que era um troço... sei lá.


Há muitos vídeos que ensinam a hidratar o polvilho para fazer a massa de tapioca. Quem sabe da próxima eu também faço um.