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Monday, December 18, 2017

18/12/2017

 Tudo nevado de manhã. E minha rinite infernal. Não que eu não goste da brancura, ah, mas o frio, esse frio inumano.



Voltou-me o pacote que eu mandei pra Alemanha. Um prejuízo, certo, mas é tão bonita essa superposição de coisas coladas. De beleza moderna, século XX, vintage. O pompom é pra Charlotte, o original do gorro dela está murchinho.


Por coincidência, antes do pacote chegar, eu tinha feito uma colagem com as sobras do papel metalizado, que o T prontamente tomou pra si.
Pedi que ele fizesse uma pra mim:


Familiarizei-me um pouco com a máquina de costura emprestada pela vizinha, uma Bernina, suíça.Uma máquina tão boa que é um prazer e ao mesmo tempo um vexame usar.


Et j'ai finit avec En finir avec Eddy Bellegueule, de que não poderia dizer pouco, senão que é muito sombrio e ao mesmo tempo delicado, que ajuda a viver na França com os olhos bem abertos.



Mudei o nome do blog.

Friday, November 24, 2017

Diário de leitura: Iain Levison, Tribulations d'un précaire

A mediateca - que eu gostaria muito mesmo de chamar de biblioteca, pfff... - da região não tem o original em inglês, mas mesmo assim deu onda.

"Plus je voyage et plus je cherche du travail, plus je me rends compte que je ne suis pas seul. Il y a milliers de travailleurs itinérants en circulation, dont beaucoup en costume cravate, beaucoup dans la construction, beaucoup qui servent ou cuisinent dans vos restaurants préférés. Ils ont été licenciés par des entreprises qui leur avaient promis une vie entière de sécurité et qui ont changé d'avis, ils sont sortis de l'université armés d'une tapette à mouches de quarante mille dollars, se sont vu refuser vingt emplois à la suite, et ont abandonné. Ils pensaient: Je vais prendre ce boulot temporaire de barman/gardien de parking/livreur de pizza jusqu'à ce que quelque chose de mieux se présente, mais ce quelque chose n'arrive jamais, et c'est tous les jour une corvée de se traîner en attendant une paie qui suffit à peine pour survivre. Alors vous guettez anxieusement un craquement dans votre genou, ce qui représente cinq mille dollars de frais médicaux, ou un bruit dans votre moteur (deux mille dollars de réparations), et vous savez que tout est fini, vous avez perdu. Pas question de nouveau crédit pour une voiture, d'assurance maladie, de prêt hypothécaire. Impensable d'avoir une femme et des enfants. Il s'agit de survivre. Encore y a-t-il de la grandeur dans la survie, et cette vie manque de grandeur. En fait, il s'agit seulement de s'en tirer."

Monday, November 4, 2013

Livro: "Crianças francesas comem de tudo"


Link para o site da autora, onde se pode ler um capítulo de graça: http://karenlebillon.com/books/

A princípio esse livro pode parecer não vir ao caso. A autora descreve uma situação inicial calamitosa, em que ela própria tem um paladar super restrito, praticamente não sabe cozinhar, as crianças não comem nada... Mas justamente me "pegou" perceber quanto não só os hábitos alimentares por aqui estão lentamente (ou nem tanto) tendendo a esse padrão muito baixo, mas como nossas atitudes "combativas" vão na mesma linha (anglo-puritana): eu tenho de admitir que frequentemente penso em me opor à miséria alimentar... não deixando a minha família comer besteira, não comprando isso e aquilo, não, não...

Os franceses médios, segundo a autora, não pensam em se opor a nada, mas em gozar cada vez melhor da comida. Associam alimentação a prazer, não a restrição, e entendem prazer não como um fenômeno primitivo e/ou natural, mas como algo que se aprende a obter - que se refina e intensifica. Isso foi o que realmente me interessou. O que é bom é determinado no interior de uma cultura dos sentidos que refina, que faz com que afinal se escolha comer melhor - e menos - o que eles associam a uma "maturidade" (os americanos comem como crianças, dizem). É enfim o a,b,c das ideias de educação, gosto, cultura, mas foi reanimador vê-lo ser descoberto tão cândida e claramente.

Por aqui, o livro me fez passar a por a mesa decentemente, sentar com uma disposição para apreciar ao máximo a refeição e a conversa, variar o cardápio - coisa muito importante, porque eu andava repetindo demais, estava acovardada - e falar com renovado interesse sobre comida com meu marido, sobre o que gostamos, o que estamos com vontade de comer, sobre alimentos que nos fazem bem ou mal... Mais importante ainda, a leitura me fez sentir menos como se eu estivesse me submetendo a uma prova de competência como mãe ao alimentar o meu filho. Nada como uma americana para guiar uma desamericanização...

Saturday, April 9, 2011

De volta. Michael Pollan, "Em defesa da comida"

Depois de um longo e tenebroso verão, que inclui uma mudança de endereço e uma briga desigual com um roteador wireless - ele venceu, óbvio - estamos aqui.

Eis que uma das coisas bacanas que me aconteceu em meio ao caos foi esse livro aqui:

Há um trecho aqui.

Ele tem a ver com o "Food Inc.", em que o autor é entrevistado várias vezes. Na verdade, me parece que o primeiro capítulo traz o que parece ser a tese do filme: que as coisas andam mal, mas que cada vez que a gente compra um item "do bem" no supermercado, dá um voto a favor de uma outra maneira de produzir alimentos e tratar o meio ambiente e as pessoas envolvidas na produção dos alimentos. Acontece que no filme a coisa meio que fica por aí, a despeito de vários "personagens" dizerem coisas que desmentem a tese. No livro, Pollan escreve várias vezes que nem todo mundo tem o dinheiro necessário para votar nessa eleição...

Mas vamos ao livro.

Nossa alimentação, a alimentação contemporânea das populações urbanas, teria sido moldada por uma ciência da nutrição (mais um ensaio ou arremedo de ciência), uma indústria produtora de alimentos (fazendas de grãos, vegetais e animais), uma indústria transformadora desses alimentos e o Estado, que entra como um restritor dos direitos dessas duas últimas, informado pela primeira (que basicamente sempre disse para o governo que a indústria podia fazer o que queria).

A manobra científica, que o livro descreve clara e convincentemente como ideológica, legitimadora da indústria, é reduzir conceitualmente os alimentos a seus nutrientes conhecidos.

A redução ou abstração que dá origem ao conceito e cria o objeto da ciência ensina, explica e legitima a redução real da coisa. A violência contra a coisa, sejamos claros.

O exemplo primeiro aí é a margarina, que passou de imitação de manteiga (o governo obrigava a indústria a avisar isso ao consumidor) a um alimento pretensamente autêntico (o governo parou de obrigar a indústria a avisar porque a ciência da nutrição disse que a margarina tinha tudo que a manteiga tinha e portanto não era uma imitação), e finalmente a algo mais que um alimento autêntico, a um substituto melhor, científico, mais saúdável, da manteiga.

A manteiga mesma também não é exatamente o que historicamente se conheceu (e comeu) como manteiga. Pollan informa - e o livro tem muita muita informação, o que na maioria das vezes é bom - que os vegetais cultivados pelos métodos agronômicos modernos (com os fertilizantes normais) têm em média quatro vezes menos nutrientes que os orgânicos. Algo assim vale para a vaca, portanto para o leite etc.

Isso significa que a redução conceitual dos alimentos dá origem não só a falsos equivalentes industriais dos alimentos naturais, mas desnatura estes últimos: as próprias coisas são falsos equivalentes de si mesmas. A técnica de produção abstrai aí das relações das espécies com as outras e com o meio ambiente, sobretudo porque reduz o solo a um composto de substâncias e porque só cobiça que tudo cresça muito e rápido.

A ciência e a técnica não são neutras porque seus objetivos e efeitos não o são. No entanto, quando a ciência descobriu que a manteiga não era nociva e que a margarina era, isso não implicou em qualquer consequência prática - porque a ciência não se desculpa pelos seus erros, pela incompletude de suas teses, mesmo que coisas reais sejam feitas tomando-as como pressuposto. Como medir o dano à saúde pública causado pela margarina? Impossível, e portanto irrelevante tanto para cientistas quanto para a indústria.

Pollan não discute explicitamente a máquina de fazer dinheiro cujo apetite devora a comida e a saúde das pessoas, das outras espécies, do solo, nem discute como a indústria dos alimentos é uma parte apenas - importante, poderosa, mas parte - de um sistema econômico predador... mas é impossível não sentir sua sombra por toda parte.

Como conclusão prática, o que ele propõe explicitamente é desconfiar da ciência e afastar-se da indústria. E enfatiza que isso é viável porque já se formaram comunidades de pessoas que escolheram esse caminho e podem se apoiar.

Bom, é óbvio que nesse ponto a coisa fica em aberto. É óbvio que o capitalismo quer engolir tudo, e que portanto a advertência sombria contra o perigo de transformação da indústria orgânica em mais uma indústria é válida. Como é óbvio que nem todo mundo tem condições de entrar nessas comunidades, que a indústria de alimentos é ultra rica e poderosa, que as massas do planeta não têm escolha porque suas terras e sementes foram confiscadas pelo capital...

Então não vou escrever nenhuma frase de efeito pra terminar.

Tuesday, February 1, 2011